Bolsa de Valores

O mercado de opções e suas vantagens na crise

Postado por Alessandro Martins em - Dicas da bolsa de valores Tudo sobre Bolsa de Valores

Este artigo é de autoria do articulista convidado Ricardo Loureiro, desenvolvedor da ferramenta de opções InvestOpções, que oferece gráficos de operações com opções de qualquer ativo, analisa as melhores opções para venda coberta, saldo de trava em tempo real nos radares, probabilidade de exercício nas opções, lucro das operações, taxas de financiamento em tempo real, entre outras funcionalidades. Clique aqui para fazer um teste grátis.

A recente crise internacional afetou de surpresa investidores de forma geral e, de forma especial, muitos iniciantes, que se viram atraídos pelos recentes ganhos obtidos na bolsa de valores, nos últimos anos. No Brasil, hoje, menos de 0,5% das pessoas físicas investem em renda variável, contrastando com os mais de 50% dos norteamericanos que negociam ações diretamente na bolsa. No início de 2008, o Índice Bovespa oscilava nas alturas, às vésperas de o Brasil receber o esperado título de Grau de investimento. O que se viu foi uma crescente procura da pessoa física pelo aprendizado em Bolsa de Valores. Entender que uma ação é a menor parte do capital social de uma empresa e como são realizadas as negociações através de um homebroker eram os passos iniciais e, muitas vezes, suficientes para o início das operações.

Nesse meio termo, a popularização do mercado de opções como algo complicado ou mesmo perigoso fez com que uma determinada fatia daqueles investidores não se interessassem pelo assunto. Entretanto, diante da crise que, então, provocou perdas patrimoniais praticamente generalizadas, ganharam conotação especial as estratégias com opções, pela possibilidade de proteção da carteira de ações e pelas taxas de rentabilidade que podem ser conseguidas de diversas formas, com as ações em alta, em baixa ou mesmo “de lado”.

Mas, enfim, o que são opções?

As opções de compra de ações são derivativos, pois derivam das ações correspondentes.  Observe o exemplo abaixo, em que as ações foram substituídas por um terreno:

Você tem um terreno de R$ 80.000,00, e alguém, achando que o mesmo será valorizado para mais de R$ 100.000,00, mas não disposto a gastar todo esse dinheiro hoje, propõe-lhe um acordo: paga-lhe R$ 3.000,00 hoje, adquire o direito de comprar o seu terreno por R$ 100.000,00 após 30 dias. Caso seja de interesse dele comprá-lo no dia do vencimento (para ele, só valerá a pena se tiver sido valorizado para mais de R$ 100.000,00), você está obrigado a vendê-lo por R$100.000,00, mesmo que esteja sendo negociado mais caro no mercado.

Da mesma forma há a negociação de opções no Brasil com vencimento na terceira segunda-feira de cada mês. Atualmente, as opções mais negociadas são as de Petrobrás e as de Vale.  Antes da data de vencimento, existem expectativas no mercado que fazem investidores pagarem prêmios para comprar ações por determinado valor, assim como houve quem lhe oferecesse R$ 3.000,00 pela possibilidade de alta do preço do terreno. Há quem pague, por exemplo, R$ 1,00 para lhe comprar suas ações da Petrobrás no próximo mês por R$ 50,00 mesmo ela estando valendo hoje apenas R$ 48,50. Para entender de forma mais simples, observe o exemplo abaixo, em que temos uma piscina completamente cheia de água. Na borda, o preço atual de mercado da ação.

Você pode, a cada vencimento de opções, vender opções sobre as ações que possui.Em troca de um prêmio recebido, limitará o ganho com a ação até um certo valor em caso de alta, mas quando a bolsa cai, embolsa o prêmio, trazendo-lhe alguma sensação de conforto mesmo com a queda de preço das ações. Essa operação é muito usada por investidores de longo prazo, que vêem na estratégia uma possibilidade de crédito extra mensal, que pode, inclusive, ser utilizado na compra de mais ações, as quais estão, após uma queda, a preços bem mais atrativos. O nome desta operação é “venda coberta de opções”, pois a preocupação principal deve ser a de lançar, no máximo, um número de opções igual ao número de ações da carteira.

Veja na tabela abaixo a variação das cotações das ações entre os dias de exercício de cada mês nos últimos 3 anos:

Quem optou por lançar sempre a opção com preço de exercício 10% acima da cotação atual do ativo foi exercido 9 vezes em 3 anos em Petrobrás, e 10 vezes em Vale. valeu a pena? Esta pergunta não pode ser respondida tão simplesmente. O fato é que não ocorrem altas de 10% todos os meses nos ativos, e, tendo em vista que a oscilação média mensal no decorrer dos últimos anos foi inferior a 10%, muitos se utilizam desse argumento para escolher esse patamar como referência.

Mas há outra estratégia utilizada para obter remuneração não sobre a carteira de ações, mas sobre um capital a partir do qual se quer ganhar uma taxa de rendimento mensal, chamada de “financiamento”.  No mesmo momento de mercado do exemplo anterior, pode haver quem lhe pague R$ 2,40, porém exige que as ações sejam entregues por R$ 48,00, ao invés de por R$ 50,00 (há negociações em vários preços de exercício diferentes em cada mês). Mas por que a opção de comprar por R$ 48,00 não custa apenas os R$ 0,50 da diferença pro preço de mercado (R$ 48,50)? O que faz alguém pagar R$ 2,40, ou seja, R$ 1,90 acima de seu “preço justo”? É exatamente a mesma expectativa de alta.  Observe:

Há várias vantagens em se conhecer a fundo o mercado de opções. Já vimos a possibilidade de ganhar algum crédito a cada mês com ações, mesmo sem haver valorização de sua cotação no mercado, através da venda coberta de opções. Agora, detectamos uma outra vantagem dessa “gordura” embutida no valor das opções. O plano é ganhar o que o mercado oferece em forma de expectativa em uma operação com alguma proteção para o capital. Percebemos que, se comprarmos ações de Petrobrás por R$ 48,50 e vendermos as opções com exercício em R$ 48,00, teremos gasto, por ação, R$ 48,50 menos o crédito de R$ 2,40 recebido com a venda da opção, ou seja, apenas R$ 46,10 (por isso, vamos chamar essa operação de “financiamento”), sendo que temos que entregar as ações a R$ 48,00, caso estejam valendo mais que isso no dia do exercício das opções. Observe a figura abaixo, em que representamos, à esquerda, um financiamento com 100 ações e 100 opções.

O gasto inicial na compra de 100 ações, de R$ R$ 4850,00, foi, em parte, financiado pela venda  das 100 opções, o que nos fez receber R$ 240,00 e “baratear” a compra para um custo final de R$ 4610,00. Se a ação estiver valendo mais de R$ 48,00 no dia do exercício, o comprador das opções que vendemos vai exercer o seu direito de comprar as nossas ações a R$ 48,00 e, ao vendermos as 100 ações a R$ 4.800,00, teremos ganho de R$ 4.800,00 – R$ 4.610,00 = R$ 190,00 ou +4,12% sobre o custo real, de R$ 4.610,00. Veja que, para esse ganho se concretizar integralmente, basta que a ação esteja acima de determinado patamar em 1 mês (no exemplo, de R$ 48,00). Caso a ação caia para um nível inferior a R$ 46,10, passamos a ter prejuízo. Entre R$ 46,10 e R$ 48,00, há algum lucro, entre 0,00% e +4,12%.  Fica clara uma proteção fornecida pela operação, do tamanho da queda de R$ 48,50 para R$ 46,10, ou seja, de quase 5%.

No exemplo de financiamento que montamos, as perdas reais serão concretizadas apenas se as ações de Petrobrás encerrarem o exercício de opções abaixo de R$  46,10.

Tendo conhecimento disto, pode-se acionar  stop loss  antes do vencimento, vendendo a ação caso a mesma oscile caia e atinja esse valor. Mas nem tudo é um mar de rosas. Não basta vendermos a ação, pois não é interessante que a opção fique vendida  “a descoberto”. Sendo assim, temos que comprá-la no momento de vender a ação.

Entretanto, o valor limite, de R$ 46,10, foi calculado considerando-se o ganho de todo o prêmio da opção. Se o investidor deseja encerrar a posição antes do tempo, ele deverá pagar algum valor pela opção, (abaixo de R$ 2,40, pois a ação caiu, e a opção também), caracterizando, assim uma perda financeira real na operação. Em muitas das vezes, é possível não ter uma perda maior que 2% nesses casos. Em suma, na operação que estamos estudando, o acionamento de stop loss leva a prejuízo residual correspondente à compra da opção vendida. A estratégia não deixa de ser boa por isso. O prejuízo residual será suportável e baixo, principalmente se considerarmos que, para a ação ter atingido R$ 46,10  partindo de R$  48,50, poupamo-nos de boa parte da queda, justificando a montagem da operação.

Outra possibilidade diante de uma queda do  preço das ações envolvidas na operação é simplesmente não fazer absolutamente nada e usar o crédito recebido para comprar ações. Imagine se as ações caíssem para um valor abaixo de R$ 46,10, digamos, para R$ 45,00. Com os R$  240,00 recebidos na venda inicial das opções, poderemos comprar 5 ações. Ora, aumentar a posição em ações da operação em 5% não é um mau negócio.

Elaboramos um estudo que analisou como se comportou a estratégia do financiamento nas ações mais negociadas no Brasil, as de Petrobrás, entre os períodos de jan/2006 e jan/2009.  O objetivo foi analisar a rentabilidade ao final do período, de um investidor que escolheu, entre as possibilidades de cada mês, uma taxa maior ou igual a 3%.

No gráfico acima, percebe-se, claramente, que a estratégia do financiamento ofereceu melhores ganhos em relação à compra simples da ação (sem a venda da opção) no início, quando a ação oscilou lateralizada, e, por várias vezes, esteve à frente do CDI, tendo remunerado o capital naqueles meses de forma mais interessante que a renda fixa.

Além disso, não foram contabilizados os pagamentos de dividendos, o que poderia melhorar ainda mais o resultado do financiamento frente ao CDI. No mercado de alta, maiores ganhos foram obtidos com a compra simples da ação. Mas chama a atenção a fase 3 do gráfico, em que um investidor apenas em ações registrou perda de 60%, enquanto aquele que fez financiamento, queda de apenas 25% do patrimônio, encontrando-se, no final, com melhor rentabilidade do que o primeiro. É importante frisar que estamos considerando um movimento de alta incomum, correspondente a alguns dos últimos 5 anos, e uma crise também incomum, iniciada nos últimos meses.

A operação pode ser seguida de acordo com a estratégia de cada investidor. Nas altas, como precisamos vender por um preço pré-definido, é natural que sejamos exercidos, ganhemos toda a taxa previamente calculada, porém, para voltar a nos posicionarmos comprados, acabamos por comprar menos ações, uma vez que elas estão agora mais caras do que o preço pelo qual entregamos. Ou seja, a estratégia remunera um capital, o montante, caso encerre com sucesso, mas diminui o número de ações da carteira ao longo do tempo. Portanto, o investidor busca ganhar taxa mês a mês, para aplicar um dinheiro que eventualmente tenha em caixa, e não obrigatoriamente deve se posicionar em longo prazo, bastando deixar de iniciar nova operação quando desejar encerrar. Na queda, pode ser acionado um stop loss sempre que, de um mês para o outro, a ação cair e passar pelo ponto de equilíbrio da operação. Entretanto, como será necessário comprar a opção vendida, a operação não encerra totalmente sem perdas.  Na análise que fizemos, optamos por não tomarmos atitude alguma diante das quedas, simplesmente usando o crédito recebido para comprar mais ações naquele mês.

O que percebemos foi que, enquanto a taxa era consolidada, por motivos já explicados, diminuía o nosso número de ações, mas interessante é verificar como ocorreu a recomposição da carteira em cada vez que não fomos exercidos na queda forte de 2008, quando usamos mensalmente o valor recebido para investir na compra das próprias ações. Nossa conclusão é que o financiamento, em mercados lateralizados ou de queda, ofereceram, no período estudado, melhor rentabilidade, e nos mercados de baixa, melhor proteção e, ainda, a possibilidade de aumento da carteira de ações. Em um mercado como o atual, permeado pelo negativismo, uma operação que forneça uma taxa mensal com proteção do capital, por mais que seja parcial, merece, no mínimo, atenção especial.

(Nota: O autor exime-se de qualquer responsabilidade de decisões tomadas a partir da leitura deste texto).

Artigos Relacionados

Gostou? Comente, compartilhe e participe.

Deixe seu comentário