Série Crise de 2008 (parte 5): quanto precisamos cair para admitir o Crash? Lembre-se de 1932…

Postado por Alessandro Martins em - Insights sobre a bolsa de valores

Esta série é foi escrita pelo psiquiatra Fernando César, editor dos blogs FTudo e Minha Padaria, para iniciantes na Bolsa de Valores.

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Na parte 2 deste artigo, perguntei, sobre a crise atual:  “Se isto não é um crash, o que seria?!”. Pensando melhor, acabei questionando a mim mesmo, e as linhas a seguir são uma tentativa de resposta.

O sistema financeiro mundial é um grande conjunto de peças de dominó, em PE, enfileiradas. A crise atual começa quando algumas destas peças, importantes, no início da fileira, começam a cair.

Os mercados entram em pânico. (Como são sensíveis esses investidores! E como se apressam os governos em acalmá-los!) Presidentes dos mais importantes países resolvem tomar medidas para segurar as próximas peças do dominó.

O que vem agora? Uma pequena euforia, talvez.

Recuperação plena dos valores dos papéis e retomada da curva ascendente? Quase impossível. O plano-de-fundo não permite. Há uma crise real: talvez agora não ouviremos mais falar de falências, mas certamente veremos balanços com ganhos menores que os previstos há algum tempo, balanços com ganhos ínfimos, com prejuízos. E há uma crise psicológica: sabendo que há uma crise, menos empreendedores se arriscarão em novos projetos.

Ou seja, levará um bom tempo (Quanto?! Impossível precisar…) até que as ações recuperem seus recordes históricos e os superem.

O Crash de 29 talvez não seria considerado um crash se apenas o ano de 1929 fosse levado em conta – do início ao fim do ano, a perda foi em torno de 20%; do recorde histórico até o final do ano, queda por volta dos 35%. Além do mais, em abril de 1930 Dow Jones praticamente recuperou o valor do início de 1929. Se (ah, os “ses”…) a partir daí o índice tivesse mantido uma tendência de estabilidade ou de alta, por mínima que fosse, o Crash de 29 não existiria nos livros de história.

O que fez a queda de 29 tão famosa é o que acontece nos anos seguintes, culminando em 1932, com os papéis se desvalorizando em média de 89% em relação ao pico histórico de 29. Talvez o melhor nome para essa crise fosse “Crash de 29-32”, seria mais explicativo e condizente com a realidade.

Enfim, com a intervenção governamental (que também houve aquela época, diga-se de passagem…) é possível que a desvalorização máxima das ações, na crise atual, não chegue nos mesmos 89% daquela época.

Dow Jones perdeu cerca de 40%, Bovespa 50%. Qual a perda necessária para que possamos “oficialmente” nomear esta crise de “crash”?   Particularmente, penso que perda de mais de 50% já seria um crash. Pois já estaríamos mais pertos do zero que do recorde. Mas outras pessoas poderiam escolher outros valores – 75%? Os mesmos 89%? Ou até menos: 25%?

Ou para a definição de “crash” seria mais importante o tempo decorrido entre a queda e a recuperação que a porcentagem de queda? De fato, se numa situação bastante hipotética os papéis caíssem 90% em uma semana e, na semana seguinte, se recuperassem e continuassem subindo, ninguém falaria em crash, mas talvez no “Grande Susto de 2008”, algo assim. Na crise de 29, Dow Jones levou nada menos que 25 anos para se recuperar plenamente! Será que se a recuperação, agora, levasse “apenas” 20 anos, por isso não poderíamos denominar “crash”? Ninguém concordaria com isso, todos aceitariam um período menor na definição. Mas quanto? Novamente, as opiniões divergiriam. Eu estabeleceria ao menos cinco anos. Dois anos ou menos, definitivamente não seria um “crash”. Talvez, falaríamos no  ”Grande Abalo de 2008”.

Como percebe-se, a melhor definição seria a que combinasse os dois fatores: magnitude da queda e duração de tempo necessária para a recuperação. Em meus critérios, totalmente pessoais, eu chamaria de “crash” uma queda de 50% ou mais que levasse 5 anos ou mais para a recuperação plena.

Este seria o “crash mínimo”.  “Crash grau 1”. O Crash de 29 seria quase o “Crash máximo” (o máximo seria a falência geral, isto é, as ações perderem praticamente 100% de seu valor; ou os valores “nunca mais” se recuperarem).

Por estes parâmetros, já temos agora um dos fatores presentes: a queda de cerca de 50% dos valores das ações. Teremos o segundo fator, isto é, uma longa espera até sua recuperação? Impossível prever. Mas já temos “meio crash”. Como se o sistema econômico mundial houvesse perdido uma das suas pernas. Resta saber se perderá a outra.

Mas até que ponto é importante este fuzuê em torno do nome da crise? Se chamarmos de “Meio Crash”, “Mini Crash”, “Crashzinho”, isso mudará alguma coisa, ao invés de falarmos simplesmente da “crise de 2008” (com inicial minúscula mesmo)? Talvez não, mas talvez sim. Um crash, mesmo que “mínimo”, seria muito mais estudado que uma “simples crise”. Estudando-se mais, haveria uma chance bem maior de se evitar a repetição desta “crise”.

Mas já não se estudou demais o Crash de 29? Sim, só que neste atual há uma lição nova: o que é aprendido, mas não é praticado, de nada serve…

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